Meio assim, como esse grampeador velho, defasado e pesado. Vontade simples de nem sei o que. A única coisa que eu sei é que não é vontade de nada disso aqui. Mesa azul, letras quadradas e colocadas sempre nas mesmas posições. Se o dedo não obedece o comando, pronto, lá vem aquela linhazinha vermelha acusante. Paredes apertadas, pessoas castradas, música baixa pra não incomodar. Uma planta que queria ser uma árvore e que, de tanto querer, ficou espremida no teto, com torcicolo. E nem assim virou árvore, coitada. Continua planta, podada, ressecada, enraizada e com torcicolo. De tanto ela querer o sol, tentou se esgueirar pela janela, inútil.Tão irritante essa planta querer ser árvore e não ser com a desculpa de que o sol não chega. Se eu fosse ela, ai se eu fosse ela... Eu rasgava esse vaso de barro, explodia esse teto espremido e arrancava essa persiana besta, só pra cuspir lá embaixo nas pessoas que passam, nas pessoas que tem pernas, que tem sol e que tem tempo. Mas, não. Ela prefere ficar aqui parada imaginando que, se fosse eu, aumentaria o som, derrubaria a mesa azul, bagunçaria as letras e sairia correndo daqui, pra nunca mais voltar.


