sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Meio assim, como esse grampeador velho, defasado e pesado. Vontade simples de nem sei o que. A única coisa que eu sei é que não é vontade de nada disso aqui. Mesa azul, letras quadradas e colocadas sempre nas mesmas posições. Se o dedo não obedece o comando, pronto, lá vem aquela linhazinha vermelha acusante. Paredes apertadas, pessoas castradas, música baixa pra não incomodar. Uma planta que queria ser uma árvore e que, de tanto querer, ficou espremida no teto, com torcicolo. E nem assim virou árvore, coitada. Continua planta, podada, ressecada, enraizada e com torcicolo. De tanto ela querer o sol, tentou se esgueirar pela janela, inútil.
Tão irritante essa planta querer ser árvore e não ser com a desculpa de que o sol não chega. Se eu fosse ela, ai se eu fosse ela... Eu rasgava esse vaso de barro, explodia esse teto espremido e arrancava essa persiana besta, só pra cuspir lá embaixo nas pessoas que passam, nas pessoas que tem pernas, que tem sol e que tem tempo. Mas, não. Ela prefere ficar aqui parada imaginando que, se fosse eu, aumentaria o som, derrubaria a mesa azul, bagunçaria as letras e sairia correndo daqui, pra nunca mais voltar.
Dor aguda, grave, constante, latejante. Ela brota da minha saliva como um veneno e escorre pelos meus lábios em chagas. Espirra em forma de palavras ásperas arrependidas. São engolidas, mal digeridas e regurgitadas. A mente meio estranha funciona como um furacão, sem descanso. O corpo pausa. O estomago grita, as costas retorcem, os nervos se apertam. Nada é bom, não existe prazer, não existe beleza. Ouço que estou feia quando mais necessito ouvir que estou bonita e isso me agride como um açoite. E eu olho para essas pessoas de cores combinadas e semblantes ensaiados e busco a graça que um dia enxerguei. Nada. Desprezo profundo. Asco. Eu torço inutilmente pelo seu silêncio mas você insiste em perguntar pela minha vida quando ambos sabemos que não existe o menor interesse. Minhas histórias tristes te provocam risadas e suas piadas me fazem chorar. Odeio essa palhaçada de silencio constrangedor por falta de novidade ou esse desperdício de palavras estéreis em abismos de ouvidos surdos. Nunca imaginei que o único elo existente seria essa porcaria de nostalgia inútil e frustrante. Não agüento mais esse cenário medíocre de café quentinho e reclamações de cheiro de rua, quando quem fede é você. Porque se você se atentasse para o que eu estou enxergando agora, não existiria cheiro nenhum de merda que lhe tiraria a atenção. Foda-se se o banheiro está sujo ou se minha calcinha aparece quando eu me sento desajeitada. Estou interessada mesmo é nessa podridão que te repulsa. Minha vontade é de mergulhar nessa sujeira só pra te fazer vomitar toda a aversão velada.
Foto por Giovani Ricciardi (www.olhares.com)


Eu aqui comendo esse doce me lembro logo do seu amarguinho. Você sempre insistindo nas cores e eu, nos cheiros e gostos. A gula e a luxúria transbordando das minhas entranhas enquanto anda a vida assim meio com preguiça. Ainda te conto dos meus planos de viver besta e erros calculados entre um silêncio inebriante e o estalar de um beijo que anseio acontecer.

E as diferenças que antes nos sugava e atraía como imã com imã, nos repele agora contra o nada em negativo. E hoje eu fico aqui com meu paraíso artificial de estrelas fluorescentes coladas no teto. Viajando pela fronteira das doces memórias e do projetar no horizonte além. Minha cabeça em sentido horário e anti-horário. Nós em fuso.
Olhe bem nos meus olhos e me diga que não estou errada. Me explique essa intensidade que beira o desespero e que enche o peito de forma que ele quase explode e dói. O ar fica rarefeito e eu engulo borboletas vivas que batem asas descontroladas no estômago. Com a visão embaçada pela súplica do meu corpo, tenho o cego ímpeto de mandar às favas essa calmaria, essa tua leveza e tornar tudo passional, irracional, inconseqüente e barulhento. Mas então você evapora toda a minha tempestade num simples e despretensioso carinhar por debaixo da mesa, essa mesa tão cúmplice do nosso delicioso anonimato. Aquece-me sem queimar e me revela, a toque nu e arrepiado, um infinito de coisas a serem exploradas. Anda, diga-me qualquer coisa. Ou melhor, não diga nada. Pegue na minha mão e apenas silencie o que não precisa ser falado.

À luz do nada faz-se sombra

Foto por Bruna Diogo (www.olhares.com)


Você ainda gostava de mim quando eu falava das coisas mundanas, bobas.
Você via graça na beleza das verdades caladas, comportadas.
Hoje sou feia diante seu espelho porque me cega o seu reflexo. E o último suspiro foi aquele de ar pesado de verdade repleto.
Resgato do porão os desejos perdidos de uma época em que o ego não passava por lá para bagunçar meus mistérios.

Encontrei-me escondida
Quase inexistente e convencida
Por detrás da figura falaciosa em que me transformava
Emergia
Em meio às flores depositadas sobre o defunto da minha alma.
Morri uma, duas, três vezes. Repetidamente. Teimosamente.

E do mergulho intenso fez-se crescente falta de luz da superfície – superficial
Rompeu-se em absoluto a ausência de todas as cores. Eu em sombra.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007


Somos como pássaros engaiolados que, mesmo com olhos projetados para uma visão privilegiada e multiangular, são censurados a reconhecer o mundo através de efêmeros e limitados fremes de irrealidade. Somos abelhas vivendo numa eterna colméia de convenções que um dia nos condenou a ver beleza nas flores e ignorar o que há de belo nos espinhos.

Somos como mariposas que batem insistentemente a cara contra a lâmpada acesa na ânsia de fugir da escuridão. Insignificantes criaturas incapazes de perceber que quanto mais se conhece a sombra, menos se é ludibriado pela luz.

Deveríamos ser como os cegos e desajeitados morcegos que se guiam através de confusas vibrações e movimentos do ar, sempre em direção ao fundo da inconsciente e mítica caverna.

Não passamos de vidas estocadas e ingeridas durante o inverno pelas nobres e gordas formigas rainhas.